O documento de trabalho da Convenção considerava no artigo 25:
| “(Os Estados) Proporcionarão às pessoas com discapacidade serviços de saúde a preços acessíveis e da mesma variedade e qualidade que a outras pessoas, [incluídos serviços de saúde sexual e reprodutiva] e programas de saúde pública dirigidos à população;” |
Os colchetes são o convencionalismo para mostrar que nesse ponto não há consenso. Muitos países já haviam expressado sua objeção nas sessões preparatórias. Normalmente e na medida que não é um tema central para a Convenção, uma falta de consenso assim já tivesse provocado o retiro da frase. Entretanto, o Embaixador da Nova Zelândia Donald Mc Kay que preside as sessões se negou a retirar o termo e manteve aberta a discussão com a esperança de inclui-lo. A dizer de Austin Ruse, presidente de C-FAM, “o pessoal das Nações Unidas se enche a boca falando de consenso, exceto quando este vai contra eles”.
São 23 as nações lideradas por Nicarágua as que se hão oposto à inclusão de “saúde sexual e reprodutiva” na Convenção. Em apóio a Nicarágua, manifestaram-se as delegações dos Estados Unidos, Honduras, Egito, Costa Rica, Bangladesh, Tanzânia, Tunísia, Qatar, Quênia, Filipinas e inclusive para surpresa de muitos a usualmente liberal Noruega. Ainda assim, Mc Kay não recua na sua tentativa. Espera-se que as negociações continuem pelo resto da sessão já que muitas delegações mantiveram uma opinião favorável ao termo ainda quando são incompatíveis com suas Constituições.
A natureza controversial da frase em questão consiste em que as Nações Unidas nunca ofereceu uma definição oficial e mas bem foi usada por múltiplas ONGs radicais deixando ver que para elas inclui o aborto. Muitas destas organizações estão presentes nas sessões da Convenção e som as mais entusiastas lobbystas da inclusão do termo. Adicionalmente terá que dizer que alguns comitês que monitoram outros tratados fizeram “recomendações” (embora não vinculantes) dizendo que os serviços de “saúde reprodutiva” deveriam incluir serviços de aborto e mudar a legislação local. Do mesmo modo, a Conferência Internacional sobre População e Desenvolvimento do Cairo que tambám não é vinculante mas que pode usar-se como uma boa referência para esclarecer o ponto, definiu o termo “saúde reprodutiva” incluindo os serviços de aborto. Portanto, é hipócrita pretender incluir esta frase e ao mesmo tempo dizer que não se pretende despenalizar e favorecer a prática do aborto onde agora é ilegal.
Demais está dizer que o lobby das ONGs pró abortistas em Nova Iorque foi muito forte. Entretanto, o que é importante assinalar é que esta “linguagem” já vem “enlatado” dos países dando a aparência de um consenso. Nossas fontes presentes no evento nos informam que o cinismo impera em muitas delegações. De outra maneira não é possível que os representantes de várias nações cometam os mesmos enganos de apreciação e omissões com respeito a suas legislações. Tomemos dois exemplos de países latino-americanos, Equador e Peru.
Quem opina na ONU em nome de todos nós?
Romy Tincopa, Conselheira da Missão Permanente do Peru na ONU, tomou a palavra na sessão do dia 16 de Agosto e referindo-se à inclusão dos termos “saúde sexual e reprodutiva” disse o seguinte:
| "Apoiamos a interpretação no sentido de que isso não cria novos direitos internacionais.(...) diferentes documentos internacionais já cunharam este termo e muitos países já o têm incluído em sua legislação nacional. Portanto, acredito que é muito importante que esta Convenção que é um avanço em Direitos humanos mantenha esta expressão" (1) |
É obvio à senhorita Tincopa pouco se importou que “Saúde Reprodutiva” seja um conceito jurídico cuja definição não se contempla no marco jurídico peruano. Tampouco tomou em conta que o Peru apresentou caminhos “reserva” ao Cairo e Beijing sobre o termo “saúde reprodutiva”. Muito menos que o Congresso da República rechaçou o termo em vários projetos de lei. A senhorita Tincopa simples e sinceramente passou por cima de todas as instâncias de poder correspondentes à soberanía de seu país e apoiou a moção de Mc Kay porque a seu parecer, manter esta expressão “é um avanço em Direitos humanos”. Fontes próximas à presidência do Conselho de ministros mencionaram que o desconforto e surpresa pela posição expressa por esta funcionária chegou até as mais altas esferas. Ao parecer, a senhorita Tíncopa expressou uma opinião ignorando a falta de consenso no Congresso sobre este tema. Na passada legislatura, um projeto sobre Lei Geral de Saúde Reprodutiva gerou grande polêmica na Comissão correspondente que é a de População, Saúde, Família e Pessoas com o Discapacidade.
A opinião da representante do Equador apóia nos mesmos termos a “figura de que isto não reconhece novos Direitos humanos ou novas obrigações jurídicas. Meu país considera indispensável que as pessoas com discapacidade tenham acesso em igualdade de condições com outras pessoas aos serviços de saúde, incluído os serviços de saúde reprodutiva”. (2)
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