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Boletim 41 (04/08/2006) PDF Imprimir

Método Billings na Guatemala: Natural, Possível y Necessário

Guatemala é um país privilegiado em sua natureza. Vulcões, lagos, rios e uma vegetação exuberante impactam a sensibilidade do visitante. Suas paragens foram o berço de uma civilização muito rica como a Maia cuja herança se mantém vigente na cultura. Tivemos a sorte de percorrer o interior do país: Quetzaltenango, Coatepeque, São Lucas Tolimán, Sololá, Zacapas, entre outros povoados e cidades. Conheci muitos “chapines” . Vivi em suas casas e assisti a suas festas. Compartilhei suas comidas, seus costumes e seu amor pela vida familiar.

Entre tudo isto, uma experiência me impactou particularmente e que, na minha opinião, constitui um desafio para o movimento pró vida internacional: a difusão e prática do Método de Ovulação Billings (MOB).

Nesta experiência encontrei plasmada não só a validez de nossa proposta em planejamento familiar mas também encontrei que aquelas dos promotores da anticoncepção e do aborto causam muito sofrimento (que nunca se menciona e tenta-se ocultar por todos os meios). Foi muito impressionante ver como o MOB vem sendo a cura e liberação desses sofrimentos para muitas mulheres humildes, objetivo preferido pelo APROFAM, a filial da IPPF na Guatemala.

Natural
Desde a Humanae Vitae o ensino da Igreja estabeleceu a radical diferencia entre os métodos naturais e os artificiais. Aprofundada na Evangelium Vitae, os cristãos entendemos que respeitar o que Deus dispôs no nosso ser e na nossa sexualidade é uma proteção para ser felizes e nos realizar como pessoas. Sendo assim, não é difícil entender que os métodos naturais estão em total sintonia com a natureza humana e são fáceis de aprender para as pessoas como os camponeses e indígenas que estão em um contato mais direto com a Natureza. Entretanto, uma coisa é entendê-lo e outra muito distinta é vê-lo.

Durante os anos que ensinei o MOB, algo tinha escutado de um casal de esposos indígenas guatemaltecos, Alvorada e Julio Limatuj. Esta vez tive a honra de passar uns dias com eles em sua própria casa em Quetzaltenango (ou Xelajú na língua local) e conhecer algo do enorme trabalho feito durante 30 anos em todo o Noroeste da Guatemala. Foram ao redor de 50,000 casais atendidos com o método em 9 regiões que requereram de um desdobramento sem igual.

Julio Limatuj, Pedro Canizas esua família, e Alba Limatuj em San Francisco El Alto, Guatemala.
Julio Limatuj, Pedro Canizas esua família, e Alba Limatuj em San Francisco El Alto, Guatemala.
 
Julio e Alba Limatuj em Xelajú, no fundo o Vulcão Santa María.
Julio e Alba Limatuj em Xelajú, no fundo o Vulcão Santa María.

Do mesmo modo, Família das Américas sob a liderança de sua Presidenta Mercedes Arzú de Wilson produziu o material adequado para que o MOB seja um método simples e exato no reconhecimento da fertilidade da mulher. Apenas são necessários marcar desenhos em uma gráfica simples. Desenhos que estabelecem um símile entre a terra e o corpo da mulher. A fertilidade depende da umidade. E como o campo da chuva, a mulher para ser fértil necessita a presença do muco cervical. Que melhores alunos que eles que levam gerações cultivando a terra em harmonia com a natureza e respeitando seus ciclos!

Os Limatuj demonstraram uma e outra vez que o MOB sendo natural contribui à harmonia e equilíbrio que todos necessitamos com Deus, com nós mesmos, com seu cônjuge, sua família e sua comunidade e com toda a Criação em geral. Passeamos por povoados e cidades e conversamos com numerosas pessoas que agradeciam ter recebido este conhecimento.

Possível
O prejuízo semeado pelos promotores da anticoncepção no mundo todo é que o MOB é muito complicado e impossível de levar a prática pelas pessoas pobres e singelas. E embora não têm estudos estatísticos a respeito, afirmam-no categoricamente em suas conferências e escritos, amparados somente em sua convicção ideológica. Digamos algo assim como um “fundamentalismo anticoncepcional”. Desse modo excluem o MOB quase totalmente dos programas de planejamento familiar. Dizemos quase porque só o citam para desacreditá-lo.

Na Guatemala acontece a mesma coisa. Para o pesoal pobre ou de zonas camponesas, APROFAM oferece os métodos de larga duração e menor dependência da vontade da usuária: injeções, DIUs ou simplesmente esterilização feminina. As pílulas anticoncepcionais costumam formar parte do arsenal como um primeiro passo.

Conhecemos várias das promotoras do MOB nos arredores do lago Aztitlán. Elas eram o vivo exemplo do errado e preconceituoso dos critérios do APROFAM e companhia. Uma delas, Marina, deu-nos um excelente testemunho de como o MOB melhorou sua relação de casal, sua vida familiar e inclusive a animou a alfabetizar-se. Marina aprendeu o MOB e começou a ensiná-lo sendo iletrada. Suas ânsias de ensiná-lo a mais pessoas e seus desejos de desdobrar-se já a levaram a cursar vários anos de escolaridade.

“Eu comecei a estudar porque queria viajar a outros lugares a ensinar o método. Ao princípio sentia medo. Hoje já não sinto medo. Viajo diariamente de povoado em povoado, de aldeia em aldeia. Se eu não sair, já o pessoal me procura. Me telefonam para me dizer que quando vou ou que existem outros casais que necessitam o método”.
“Eu comecei a estudar porque queria viajar a outros lugares a ensinar o método. Ao princípio sentia medo. Hoje já não sinto medo. Viajo diariamente de povoado em povoado, de aldeia em aldeia. Se eu não sair, já o pessoal me procura. Me telefonam para me dizer que quando vou ou que existem outros casais que necessitam o método”.
Longe de ser um testemunho isolado, Marina é uma das tantas felizes realidades que desafiam os supostos do “fundamentalismo anticoncepcional”.
Dr. José Duarte e Carlos Polo em seu consultório, em Zacapas.
Dr. José Duarte e Carlos Polo em seu consultório, em Zacapas.

No ano 2000, o Dr. José Duarte conduziu uma investigação em 13 departamentos da República de Guatemala. A população estudada foi de 19,000 casais. A todas elas lhes fez um seguimento semanal. O resultado de efetividade do MOB foi de mais de 99% onde só 3 casais conceberam no período de estudo, supostamente por ter tido relações no período fértil. O Dr. Duarte, ou “Chepe” para a maioria de seus coterrâneos em Zacapas, recorda exemplos como o daquele casal, ele com 16 anos e ela com 15, iletrados ambos e muito pobres (ela vendedora de "tortillas" no mercado) que levaram o método à perfeição.

Inclusive dois anos depois, realizou-se um estudo de seguimento sobre os 19,000 casais incluídos no primeiro estudo. Neste estudo se pôde constatar que o 93% dos casais seguiam o método e não só estavam contentes com o MOB mas também além disso manifestavam que tinham uma melhor vida sexual com seu cônjuge. Particularmente no Ocidente, quer dizer os discípulos dos Limatuj, mostraram uma maior participação dos maridos tanto na prática do MOB como na assistência às reuniões.

Por tudo isso, os guatemaltecos nos mostraram que o MOB é uma opção absolutamente possível de ser levada na prática a grande escala. Mas para os promotores da anticoncepção artificial esta experiência tem um defeito insalvável: é grátis e não há necessidade de comprar nada.

Necessário
Guatemala, como todos os países da América Latina, sofreu a invasão dos programas de controle natal por décadas. Milhões de dólares foram outorgados pelo USAID à filial da IPFF, APROFAM. Os programas de controle natal foram particularmente desumanos com as mulheres pobres. Os efeitos adversos de injeções e pílulas, esterilizações e DIUs é algo sobre o qual ninguém quer falar. Pior ainda é algo do que ninguém se faz responsável.

Uma investigação feita pelo Procurador de Direitos humanos da Guatemala no ano 2000 determinou a violação aos direitos de mais de 20 mulheres e ordenou ao APROFAM que outorgasse uma reparação civil e econômica. Entretanto, estas mulheres foram muitas vezes aos escritórios do APROFAM de seu povo e nunca receberam nada mais que evasivas. Depois de tanta insistência, disseram-lhes que deviam ir reclamar aos escritórios da capital. É obvio sabiam que estas mulheres pobres não tinham os recursos para viajar e desistiriam como finalmente aconteceu. Estas violações ficaram impunes até a data.

Não obstante existe ainda uma esperança para muitas delas. Conhecemos uma parte do excelente trabalho de Família das Américas no ensino do MOB nas zonas urbanas pobres da cidade de Guatemala. Fomos até a casa de duas senhoras que tinham sofrido os efeitos adversos de injeções, pílulas e DIUs por anos: dores de cabeça e nauseia, dor e inflamação cervical, sangrados profusos, mau humor, perda do desejo sexual, etc. Elas nos contaram como aprenderam o MOB e experimentaram a recuperação de seus ciclos menstruais e de uma vida sexual plena com seus cônjuges.

Seus testemunhos tiveram um sentimento profundo de liberação. Disseram-lhes que os anticoncepcionais lhes dariam bem-estar e só experimentaram infelicidade e dor.

Raquel, 30 anos, Colônia La Florida Raquel, 30 anos, Colônia La Florida
“Primeiro me deram a pílula e me fizeram mal. Eu perguntava se era normal e me davam analgésicos. Depois foi a injeção de 3 meses, desapareceu a menstruação e com a de um mês era abundante. Os dores de cabeça e o mau humor nunca se foram. Eu pediria aos do APROFAM que digam claramente as conseqüências. Porque vi que seu trabalho era vender e não lhes interessava o dano que faziam às mulheres pobres. Por isso não dizem a verdade. Em Família das Américas sim me disseram a verdade sobre os danos dos hormônios”

Vilma, 27 anos, Colônia Mesa
“Tive 3 anos com a injeção de cada 3 meses e 3 anos com a pílula no APROFAM. Tinha muitas dores de cabeça, de ventre, estava neurótica, até que me dava conta que era pelo método. Nunca me disseram as conseqüências. Tive que ir a um ginecologista particular por uma séria hemorragia. Não retornei ao APROFAM porque minha mamãe teve câncer à matriz e descobrimos que foi pelos métodos do APROFAM. Em Família das Américas me deram a informação que necessitava e me dava conta que o MOB não me ia fazer mal porque era natural. Levo meu controle em uma gráfica e é um método muito fácil e graças a Deus melhorou a compreensão com meu marido. Foi uma mudança radical. Eu falei com as minhas amigas para que usem o método natural”.

Vilma, 27 anos, Colônia Mesa
Estas mulheres guatemaltecas sabem mais do que ninguém como é necessário o ensino do MOB. O que pedem é que mais mulheres tenham a oportunidade de conhecer o MOB e não sejam enganadas como elas foram em seu momento pelo APROFAM.
 
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