Queremos trazer esses termos, o da TV e o dos mantimentos, para descrever aos programas de controle natal e especificamente de promoção do aborto na América Latina. O jurista argentino Atilio Álvarez em uma de suas visitas ao Peru nos deixava em uma de suas conferências esta sugestiva figura. Diante do evidente fracasso em todo mundo dos programas de controle natal, descrevia-nos a lista de promessas incumpridas de acabar com os abortos ilegais ou gravidezes de adolescentes, de trazer mais felicidade aos casais, de contribuir à melhora da economia, e vários etcéteras, além de criar novos problemas como os da saúde para a mulher, a desintegração da família ou o envelhecimento da população. Comentava o Dr. Álvarez a respeito da aplicação de programas de controle natal na América Latina que “antes de importar ideologias enlatadas devíamos olhar a data de expiração para não nos levar uma decepção”.
Assim como os enlatados de TV e as conservas não são a melhor escolha diante de uma boa produção nacional ou uma boa comida caseira, os programas enlatados do aborto não respondem a uma reflexão ou a uma necessidade local. Respondem absolutamente a um fim mais imediato que é a introdução da indústria do aborto em nossos países latino-americanos. São importações em apóio a uma mensagem e argumentos bastante gastos, e pelo mesmo contestáveis com relativa facilidade. Preparados em latitudes longínquas contêm elementos indigestos que devemos explorar mas que serão consumidos se não fizermos nada melhor pelo nosso lado.
Ignacio Moro nos oferece neste boletim uma documentada crônica de uma recente campanha de legalização do aborto em Córdoba, sua cidade natal. Certamente reconhecerá os mesmos slogans, os mesmos argumentos, as mesmas estratégias que seguro terá visto em outro “enlatado” realizado em seu país. Também inclui algumas ações pró vida muito sugestivas. A seguir reproduzo também o excelente e oportuno serviço informativo NOTIVIDA dirigido pelo padre Juan Claudio Sanahuja com as cifras oficiais que mostram a pobreza e falácia dos argumentos desta campanha abortista.

Ignacio Moro
Nasceu na cidade de Buenos Aires (Argentina), onde se formou como Engenheiro Eletromecánico. Sua carreira profissional esteve vinculada principalmente à indústria automotriz.
Foi co-fundador em 1983 do Movimento Família e Vida, participando após de diversas campanhas em defesa dos valores da família e a vida, seguindo o chamado do Papa João Paulo II na sua encíclica “Familiaris Consortio”.
Em 1993 foi co-fundador e primeiro Presidente da Fundação Argêntea, que tem como fim promover o desenvolvimento integral da pessoa humana na sociedade, dos valores da vida e a família. Ali participou da publicação da revista “Vertebrar”, e representou à fundação na Roda de Enlace de ONGs. Também coordenou a venda e difusão na província de Córdoba (Argentina), da coleção de livros “Aprendendo a Querer” (desenvolvimento da personalidade e educação sexual para adolescentes) editada pelo ALAFA.
Atualmente é Vice-presidente de dita fundação, e vive na cidade de Córdoba.
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Na sexta-feira 27 de maio, a cidade de Córdoba, no centro geográfico da Argentina, assistiu ao lançamento da “Campanha Nacional pelo Direito ao Aborto Legal, Seguro e Gratuito”. Mediante esta campanha, e sob o lema "Educação sexual para decidir, Anticoncepcionais para não abortar, Aborto legal para não morrer" as principais ONGs feministas do país, recolherão assinaturas durante 6 meses, a fim de forçar a legalização e gratuidade do aborto em todos os casos. O encerramento será 25 de novembro, “Dia de Ação contra toda Violência para a Mulher”, com uma marcha federal até o Congresso Nacional.
Dito lançamento consistiu na instalação das chamadas “rádios abertas” nos lugares principais de Córdoba, Buenos Aires, Rosário, Mendoza e Neuquén. Enquanto as rádios difundiam a tarde toda propaganda abortista, as organizadoras juntavam assinaturas e repartiam abundante material impresso e cintas verdes, o símbolo da campanha.
A repercussão na imprensa foi muito importante a nível local e nacional, e não refletiu a escassa convocatória popular dos atos. As mesmas organizadoras, relataram que foram superadas em número pelos jornalistas presentes.
Liliana Vázquez, dirigente de “Católicas pelo Direito a Decidir” -ONG internacional que lidera esta campanha e cuja filial argentina tem sede em Córdoba- declarou à Voz do Interior: “Os direitos sexuais e os reprodutivos, dos que o aborto faz parte, são parte integrante dos direitos humanos”. Em tanto que Marta Alanís, da mesma ONG e coordenadora nacional da campanha, disse a Página/12: “as palavras do Ministro da Saúde e o enfrentamento com a Igreja habilitaram o momento e agora terá que aproveitá-lo”, referindo-se às declarações do Ministro Ginés González García a favor do aborto, e ao posterior intento do Presidente Kirchner de remover ao Bispo Militar Dom Baseotto, quem tinha pedido a renúncia de dito ministro. Como era de supor, González García apoiou publicamente a campanha (www.pagina12.com.ar).
Uma das características deste tipo de campanhas -e esta não é exceção- é a manipulação das cifras. Por exemplo, a quantidade anual de abortos na Argentina é estimada entre 350.000 e 500.000 (www.lavozdelinterior.net), ou entre 700.000 e 1.000.000 (www.lmcba.com.ar). Cabe perguntar-se se isto é possível, quando na Espanha, um país com 30% mais de população e uma sociedade mais secularizada, realizaram-se em 2002 algo mais de 70.000 abortos legais.
Chama a atenção também, que ainda quando se pretende justificar a legalização do aborto na grande quantidade de mortes maternas por abortos mau realizados, nunca se dão cifras. A razão é, que segundo dados oficiais do INDEC (Instituto Nacional de Estatísticas e Censos), o total de mortes maternas por aborto (espontâneo ou provocado) em 2003 na Argentina foi de 83. A só menção desta cifra, deixaria em evidência a falsidade das anteriores estimativas sobre o total de abortos clandestinos.
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Outra forma de engano é magnificar o apoio popular a estas iniciativas, criando a sensação de que a maioria da população as apóia. María Virginia Magro, uma jovem cordovesa que presenciou o ato, afirmou que as organizadoras não passavam de 15 ao longo da tarde (www.lmcba.com.ar), e que um de jovens que distribuia propaganda e preservativos lhe confessou que recebiam salários do Ministério de Saúde e apoio econômico da OMS. Para ter uma idéia, a página Web de uma das ONGs organizadoras (www.rimaweb.com.ar), celebrava ter juntado essa tarde em Córdoba 600 assinaturas. Na página Web pro-aborto www.argentina.indymedia.org podem ver-se fotos do evento onde é obvio não há nenhuma que mostre uma quantidade significativa de pessoas.
Cristina González Agüero, presidenta da ONG pro-vista “Mulheres pela Vida” do Córdoba, opina que o Ministro da Saúde “já fracassou” (www.lmcba.com.ar) pois logo depois de 4 anos de gestão, nos que a Argentina foi notícia mundial por vários casos de meninos falecidos por desnutrição, este problema segue sem resolver. Na sua carta ao jornal A Manhã de Córdoba, Cristina relata que em um congresso de nutricionistas realizado recentemente nessa cidade, a responsável por nutrição infantil do Ministério de Saúde da Nação confessou que “em média, em nosso país, um de cada dois meninos entre seis meses e dois anos de idade apresenta um déficit de micronutrientes, em especial de ferro (anemia) e zinc”. Dois dias depois, em 31 de maio, A Voz do Interior (www.lavozdelinterior.net) publicou a notícia da morte por desnutrição do Raúl Alcides Roa, um adolescente formoseño de 14 anos, ocorrida 19 dias antes.
Entretanto, para o Ministro Ginés González García, uma das prioridades para a atribuição do orçamento foi a promoção da “saúde sexual e reprodutiva”, e agora o aborto. Pareceria que a única maneira de evitar a desnutrição infantil que encontrou o outrora “celeiro do mundo”, é impedindo a gestação e o nascimento de mais meninos argentinos.

Quem briga pela despenalização do aborto fundam suas reclamações no “volumoso” numero de mulheres que morrem por praticar um “aborto inseguro”. Sem deixar de reconhecer a importância que tem cada morte, cabe destacar que as cifras não assinalam ao aborto como uma “prioridade sanitária”.
Segundo os últimos dados providos pela Direção de Estatísticas e Informação de Saúde, do Ministério de Saúde; durante o ano 2003 se produziram 304 mortes maternas, quer dizer relacionadas com uma gravidez, parto ou puerpério; das quais 83 estão vinculadas ao aborto –espontâneo ou provocado-. Para avaliar a magnitude lembremos que nesse mesmo ano morreram ao redor de 11.500 crianças menores de um ano, por causas, na sua maioria evitáveis.
Com respeito à mortalidade materna consignemos além que:
O nível de sub-registro estimado em nosso país não alcança o 10%; contrariamente ao que aduzem os abortistas para inflar as cifras: “a clandestinidade do aborto conduz um enorme sub-registro”. (v. Notivida nº 239)
Uma estrutura hospitalar deficiente aumenta 10 vezes o risco de mortalidade materna e na Argentina só o 40% das maternidades cumprem com as condições obstétricas mínimas. (v Notivida nº 239)
A mortalidade materna se incrementa notoriamente com as cesarianas e em nosso país 1 de cada três partos –inexplicavelmente- é por cesariana. (Página 12, 31/03/05)
Evidentemente, ainda à margem das objeções morais que suscita o aborto, há muitas coisas para corrigir antes que expor seu despenalização.
NOTIVIDA, Ano V, nº 288, 28 de abril de 2005
Editor: Pbro. Dr. Juan C. Sanahuja
Coeditor: Lic. Mónica del Río
Página web: http://www.notivida.com.ar
Email: notivida@notivida.com.ar
Ver Boletim 17 (10/06/2005)