Com um financiamento de 150.000 dólares da IPPF, o projeto de Campinas está dirigido a implementar um serviço de aconselhamento em 15 centros públicos de saúde em toda a cidade. Também anunciaram na imprensa que teriam como meta atender a interrupção da gravidez de 3.000 mulheres em um primeiro prazo de 10 meses .
Explicou Costa que um dos métodos “seguros” que se aconselharão é o uso de um fármaco e as instruirão para que o consigam com seu nome comercial. O que procuraa BemFam é ensinar a toda mulher que for ao seu “serviço de conselheria” que pode tomar essa droga e iniciar um aborto. Deve-se destacar que Costa não fala de casos extremos contemplados pela lei senão de dar a qualquer mulher grávida a opção de iniciar o aborto com um fármaco. Em seguida BemFam poderia realizar o aborto sob a figura do “aborto incompleto”, o que os eximiria de qualquer sanção penal.
A tudo quanto foi mencionado deverei adicionar a irregularidade do uso da droga proposta pela BemFam. Em princípio está indicada para o tratamento de problemas gástricos, freqüentemente se usa em práticas abortivas ilegais já que, como efeito secundário, provoca severas contrações do útero, independentemente do tempo da gestação, obtendo-se assim o aborto . No Brasil, essa indicação e uso em ginecologia está restringido só a alguns hospitais registrados para indução do parto ou para o que eufemisticamente se chamou “casos de aborto previstos na lei”.
O de Campinas não é um projeto original
Este projeto brasileiro está inspirado na experiência do hospital Pereyra Rossell no Uruguai. Neste hospital público, responsável pelo 20% dos partos desse país, oferece-se este mesmo sistema de “orientação” a mulheres que planejam abortar. Introduziram-no da mesma maneira. Ao princípio, disseram que era só informação para “prevenir abortos inseguros, feitos fora da legalidade, por pessoas não capacitadas”. Mas na prática, foi convertendo-se em uma forma de burlar a proibição do aborto, já que os médicos “aconselham” formas "de fazer aquilo que não deveria ser feito”. E como pode ser facilmente deduzido, o principal método sugerido é o mesmo fármaco em questão.
Mais ainda. A partir de 2004 no hospital Pereyra Rossell existe uma regulamentação denominada "Normas e Guia Clínica para a Atenção Pre e Pós-aborto" que inclui, entre outras coisas, este processo de “orientação” às mulheres sobre técnicas de aborto existentes e os riscos de cada uma. Fontes confiáveis no Uruguai nos indicam que este serviço não só induz as mulheres gestantes a tomar a droga mas também a fornecem. Com certeza, Ney Costa e BemFam esperam que em um futuro muito próximo em Campinas possam conseguir uma norma legal similar e um serviço de fornecimento legal do fármaco para fazer abortos.
É muito indicativo que em junho deste ano os integrantes do projeto de Campinas tenham se dirigido para a receber treinamento ao Hospital Pereyra Rossell.
Ministério Público pediu realizar uma investigação
Em junho, o Ministério Público do Estado de São Paulo enviou à Delegação Seccional do Município de Campinas um pedido de abertura de investigação policial por apologia do crime cometida pela BemFam. O procurador Dr. Fernando Pereira Vianna Neto, do Ministério Público de Campinas, no cumprimento de sua missão de prevenção do delito, pronunciou-se publicamente com base na existência de vários indícios.
Com muita valentia Vianna está fazendo prevalecer a prudência inclusive contra as declarações dos representantes da Secretaria de Saúde de Campinas e do próprio Ministro de Saúde, José Gomes Temporão. Este último afirma que este projeto não é uma apologia do crime senão um “direito à informação” da cidadania. "Em realidade (o projeto) está dentro da política de direitos sexuais e reprodutivos, que é tratar adequadamente com respeito, dignidade e humanização às mulheres em processo de abortar". Note-se que o Ministro é ambíguo e busca encobrir o provável delito quando diz “a mulheres em processo de abortar” já que o que procura BemFam (e o que se faz tanto no Cemicamp como no Uruguai) é aconselhar a toda mulher grávida independentemente de cumprir ou não com os requisitos da lei para um “aborto não punível”.
Um dos mais claros indícios sobre os quais se apóia Vianna é a informação da Coordenadora de Saúde da Mulher. Esta informou que anualmente há registros de três mortes em procedimentos ilegais de aborto em Campinas. Muito diferentes são os resultados do estudo apresentado pelo Centro de Investigação Materno-Infantil (Cemicamp) da Universidade de Campinas (Unicamp) que mostrou que pelo menos 1.500 mulheres recebem anualmente atenção por aborto incompleto e não reportam nenhuma morte. Aníbal Fagúndes, um dos responsáveis pelo projeto Cemicamp, da Cemicamp é reduzir os danos por abortos incompletos e também o número de tentativas de interromper a gravidez.
Conhecer o pensamento e a trajetória de Aníbal Faúndes nos permite entender que de jeito nenhum se trata de ajudar às mulheres a conservar suas crianças senão apenas a organizar uma forma mais efetiva de eliminá-las burlando a lei (Ver Mais)
Um dado interessante é que Faundes também foi um dos gestores do serviço de abortos no Uruguai. Tudo indica que a escolha de Campinas não tem nada de casualidade. Se trataria de levar até outras dimensões o que se fez pontual e impunemente no Uruguai. Campinas é uma cidade com 2 milhões de habitantes e ofereceria à IPPF um know-how de como ter um serviço de aborto legal na América Latina sem passar pelo Congresso para reformar as leis.
Ministro da Saúde expõe debate para desinformar. A co-participação em um delito.
Para desinformar à população, o Ministério de Saúde está propondo um debate amplo na raiz do escândalo público que desatou o projeto de Campinas. Temporão sempre defendeu que o aborto tem que ser encarado como um problema de saúde pública, discurso calcado nas propostas dos grupos radicais pelo aborto, e adotada também pelo presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva . De acordo com o Ministro o aborto tem que ser incluído em uma política de planejamento familiar mas, segundo ele, isto não está sendo discutido dentro do governo.
Mas o procurador Fernando Vianna é claro: “não se trata de uma questão de opiniões, a favor ou contra o aborto, mas sim de uma violação das leis que regem o Estado de Direito no Brasil". O aborto só é um ato não punido quando é praticado em casos de estupro ou riscos de vida da mãe, e só em casos de extrema necessidade", afirmou.
Sobre as atividades do CEMICAMP e Bemfam, Vianna disse que "Se alguma coisa já acontece nesse sentido, pensamos que outro tipo de crime pode estar acontecendo: o da Co-participação, já que dessa forma, as pessoas envolvidas nesse projeto estariam induzindo, instigando às mulheres que têm ou poderiam ter intenção de abortar."
Investigação policial já começou e logo se terão resultados
O delegado Oswaldo Diez Júnior da Divisão de Homicídios e Proteção da Pessoa da Delegação de Investigações Gerais de Campinas abriu uma investigação para determinar se existe ou não apologia do crime. "O assunto é polêmico e as
investigações ainda estão em um início. Portanto, ainda não podemos tirar conclusões do que aconteceu", afirmou Diez Júnior.
Também adiantou que se for constatado que alguma mulher foi induzida a praticar um aborto, as organizações poderiam ser responsabilizadas. "Nesse caso, poderia ser catalogado como Co-autoria do crime", adicionou o delegado. O prazo previsto da investigação é de 30 dias, que poderia ser ampliado mais um mês.
Entre as gestões que Diez Júnior deverá realizar estão as entrevistas aos representantes de todas as organizações envolvidas, entrevistas que já começaram. Um repórter da Agência de Notícias Anhangüera (AAN) tentou contatar os representantes do BemFam e nenhum deles quis falar sobre o assunto. |