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Boletim N. 20 - Quarta-feira 13 de julho de 2005

 

EA força da integridade

Em uma recente entrevista para a Agência Fides, o Cardeal e Arcebispo de Lima, Juan Luis Cipriani, falou energicamente sobre alguns temas pró vida e pró família. Enfatizou que quem é negligente e não cumpre com seu dever nestes temas comete um pecado de omissão, tão grave como os pecados de ação. “O apóstolo de hoje não deve ter medo de levantar-se por aquilo que é bom e verdadeiro, ainda se isto significar perder um trabalho, receber ataques e inclusive às vezes, oferecer a vida”, sosteve o Cardeal.

Sem dúvida haverá muitos que só se “comprometeriam” se não lhes afetasse ou outros que temem perder o que têm. Mas é muito melhor olhar os bons exemplos, que existem.

Um grupo de equatorianos lutaram eficientemente contra a venda da pílula do dia seguinte em seu país. depois de ter uma sentença favorável que retirou do mercado o Postinor II, o caso passou à instância definitiva do Tribunal Constitucional. Ai teria sido ratificada a sentença se não tivesse saido inesperadamente o Presidente Gutiérrez. Como no Chile, Peru e Argentina, os promotores da pílula usaram o mesmo esquema, aspecto que favoreceu muito nosso apoio concreto a essa luta.

Já no Equador, fomos testemunhas do esforço coordenado de equatorianos e especialistas latino-americanos e de outras latitudes. Não foi uma luta fácil. como sempre era desigual em recursos. Foi outro litígio latino-americano que atraiu a atenção do Center for Reproductive Rights que está acostumado a patrocinar causas para tirar a proteção legal ao menino por nascer. Na batalha legal encontramos que o laboratório húngaro Gedeon Ritcher, fabricante de levonorgestrel a nível mundial, contribuiu com recursos para nos vencer judicialmente. Isto atraiu por sua vez a organizações feministas, ginecologistas e advogados para defender a venda da “pílula do dia seguinte”.

Nesse contexto, dentro de tantas experiências enriquecedoras, conheci os esposos Alejandro e Araceli García. Exemplos de integridade como a deste casal são os que nos dão força e som a chave do nosso triunfo. Frente a tantos mercenários que se movem por interesses econômicos até o ponto de desprezar a vida, temos um exemplo daqueles que amam tanto a vida até o ponto de desprezar seus legítimos interesses econômicos.
 

 
 
Carlos Polo
Diretor Escritório para a América Latina
Population Research Institute
 
 

““Oxalá não me peçam isso ”,disse-lhe Alejandro García à sua esposa Araceli. Ele se referia ao que já era mais que um rumor no laboratório farmacêutico onde trabalhava. Seu posto: visitador médico. A partir do segundo semestre de 2004, Tecnofarma venderia Glanique no Equador: a polêmica “pílula do dia seguinte”. Alejandro, especialista em produtos ginecológicos, teria que promocionar o produto.

As circunstâncias tinham posto ao Alejandro em uma encruzilhada. Tinham passado uns poucos meses desde que o chamassem a trabalhar na Tecnofarma duplicando o salário que percebia em seu anterior emprego. Sua responsabilidade e esforço tinham sido reconhecidos. Seu prêmio: melhorar as condições de vida de sua jovem família. Dois filhos, Anabel de 4 anos e Davi de meses, Araceli sua esposa e seus próprios pais recebiam os benefícios desta melhora econômica. Mas o emprego que o estava enchendo de merecidas satisfações lhe pedia agora que fora contra suas convicções.

“Mas meu amor, você sabe o que acontece se for escolhido. Simplesmente você não pode promocioná-la”, foi a resposta firme da Araceli. Ela era consciente das previsíveis conseqüências. E o prazo não se estendeu mais. Aos poucos dias chegou Alejandro com a novidade. “Me escolheram”. “E você que disse?”, perguntou Araceli ansiosa. “Não disse nada”, respondeu. “Tenho que averiguar. Tenho que ver mais”.

Os dias seguintes foram de uma busca frenética na internet. “Passou dias averiguando, como tratando de procurar uma saída”, comentava depois Araceli. A informação médica do produto que lhe deram na Tecnofarma não admitia dúvidas sobre a manipulação que se pretendia. Os visitadores foram instruídos para encobrir o efeito abortivo utlizando à argumentação falaz da OMS: a concepção como sinônimo de implantação. Alejandro afetado e com dúvidas se perguntou se em algo o laboratório tinha razão. Procurou algo que o ajudasse a não perder seu emprego mas não o encontrou. Topou-se pelo contrário com o website de www.tercerefecto.com , com a informação médica especializada, com as notícias do Chile e Argentina onde se emitiram juízos ratificando o atentado contra os meninos por nascer. Logo consultou a um médico especialista amigo. Tudo estava muito claro... sempre esteve claro.
 

Alejandro e Araceli junto a Andrés Negri rezando o terço dos sábados no Santuário da Mãe dos não-nascidos em Guaiaquil. Junto da imagem encontram-se enterrados os restos de muitos meninos vítimas de abortos, que foram achados no lixão.

“A quem quer enganar, Alejandro? Você sabe o que tem que fazer. Deus proverá”, concluiu decidida Araceli. Nesses momentos seus filhos começavam a sofrer de asma e lhes tinha sido prescrito um tratamento longo e oneroso. E no cúmulo, seus familiares questionavam a possibilidade da renúncia.

À busca de informação seguiu uma busca ainda mais profunda. Alejandro teve uma conversação com um sacerdote. Este lhe disse umas frases que à mentalidade contemporânea resultariam incompreensíveis e duras em extremo: “é preferível a morte antes que matar meninos por nascer”. Mas para o matrimônio de Alejandro e Araceli decidir ser fiéis a sua consciência significa liberdade: a liberdade dos filhos de Deus. Ambos comentavam depois, “Embora nós desde antes já sabíamos o que tínhamos que fazer: Lutar contra isso”.

Lançamento do Glanique

Um evento para médicos e um presente de uma garrafa de vinho promocionando Glanique foram parte das Actividades de um lançamento normal de um produto farmacêutico. O que sim chamou a atenção do Alejandro foi o público alvo da promoção. Um pôster para pegar nas farmácias tinha a imagem de um casal de jovens beijando-se em um automóvel de assentos de pele de leopardo com vista à cidade de noite. Nada que ver com a planificação familiar. Muito que ver com este novo tema dos direitos reprodutivos. Não havia nada que construísse famílias nisso. Tratava-se mas bem de captar o consumo dos adolescentes que quisessem sexo sem gravidez de por meio.

Tinha chegado a hora da verdade. Alejandro comunicou a seu Supervisor que não promocionaria a pílula do dia seguinte e que renunciaria se insistiam. Pediu uma mudança que sabia difícil de obter porque sentaria um mal precedente em uma força de vendas composta por 130 pessoas. Era a primeira vez que acontecia uma coisa assim.

O primeiro ato de desobediência foi não recolher as amostras médicas que entregaria aos profissionais que iria visitar. Seus colegas lhe diziam que pegasse as amostras e logo não as oferecesse conservando assim o emprego. Ao fianl de contas, aos médicos, muitos dos quais sabem que é abortiva, não lhes importa e a recebem assim mesmo. Sem má intenção, seus colegas lhe queriam fazer ver que seu sacrifício ia ser totalmente inútil. Mas a exigência do Alejandro ia além.

Imediatamente foi chamado pelo Gerente de Produto quem se declarou católico “de reza à Virgem antes de deitar-se” mas que não compartilhava essas idéias antiquadas do Papa. Repetiu os mesmos argumentos do truculento marketing e o dardo tentador de "aqui você ganha muito bem”. Em seguida lhe ordenaram ao Supervisor acompanhá-lo nas suas visitas médicas. A gestão foi breve porque Alejandro lhe reiterou que não promocionaria Glanique. Seu supervisor não soube o que fazer e preferiu trabalhar com outro visitador.

O próximo passo foi que o Gerente Geral da Tecnofarma o citou no dia seguinte. Tentou persuadí-lo por última vez, mas finalmente concluiu: “Somos uma empresa que comercializa. E se você não pode vender nossos produtos, então vamos ter que tomar a sua palavra”.

Alejandro renunciou. Demorou dois meses em empregar-se novamente. Retornou ao laboratório onde tinha começado. Seus filhos não voltaram a sofrer de asma. Ganha um salário menor mas sua vida se enriqueceu tremendamente. É que existem coisas que muitos não podem entender: a integridade de um homem vale mil salários e Araceli, mãe e mulher de fé, tinha a chave: Deus proverá. Proveu ao corpo... mas também lhes deu uma paz e uma alegria que outros invejariam.

 
 


Steve Mosher é Presidente do Instituto de Pesquisa da População (Population Research Institute), uma organização sem fins lucrativos dedicada a desfazer a mentira da sobrepopulação no mundo.
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